terça-feira, 31 de julho de 2012

Para atravessar agosto...


Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.
 Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

Caio Fernando Abreu (6/8/1995 – para o jornal o estado de são paulo)

sábado, 28 de julho de 2012

Por que nós?


"Éramos célebres líricos
Éramos sãos
Lúcidos céticos
Cínicos não
Músicos práticos
Só de canção
Nada didáticos
Nem na intenção
Tímidos típicos
Sem solução
Davam-nos rótulos
Todos em vão
Éramos únicos
Na geração
Éramos nós dessa vez
Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação
Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão
Fomos serenos num mundo veloz
Nunca entendemos então por que nós
Só mais ou menos"

(Marcelo Jeneci)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Volver


Algo me incomoda ultimamente. Não, não sei dizer o que é. Sinto uma estranha familiaridade racional com tudo isso. Se já estive nesse ponto outras vezes!? Sim, acho que sim. Provavelmente um daqueles insights psicológicos que custam a se desfazer.
Acho que a chave da questão é onde estive antes de agora.

Isso me soa familiar, aliás, acho que faz lembrar todo aquele discurso sobre "enantiodromia" http://pt.wikipedia.org/wiki/Enantiodromia, que vivo me queixando e debatendo com o Luiz Filipi http://tornbystars.blogspot.com.br/, e que, recorentemente me encontro.
Não sei se trata-se de ter ido a lugares tão "sombrios" da minha mente, que me faz agora achar tudo tão "aceitável" e "simples", e tudo bem, deve ser um daqueles momentos "no drama", que invariavelmente se converterão em sentimentalismo tolo.
Sinceramente!? Estou me cansando disso. Consigo prever cada movimento que ocorrerá comigo e com os que me cercam neste momento. Cada acerto, cada erro, cada sentimento...
Como se fosse sempre o mesmo teatro, cada vez com atores diferentes.
E ai, meio que vai ficando mecânico, e, talvez mais racional (Sempre achei que isso fosse uma coisa boa, agora já não tenho tanta certeza).

Confesso que com essa "antevisão" das coisas, dá pra modificar algumas cenas, fazer diferente, mas, irremediavelmente alguns atos acabam do mesmo modo. Quase como um "destino fatalístico".
Só espero que essa peça fique em cartaz por mais tempo, e que, eu não morra no final (Pelo menos não de modos tão terríveis como em outras ocasiões).
E, só pra variar esse pensamento me conduz a um link que também fiz algumas outras vezes (Sou tão previsível)...

Como a CigarraTantas vezes me mataramTantas vezes morriEntretanto estou aquiRessuscitandoGraças dou à desgraçaE à mão com punhalPorque me matou tão malE segui cantando
Cantando ao solComo a cigarraDepois de um anoDebaixo da terraIgual sobreviventeQue volta da guerra
Tantas vezes me apagaramTantas desapareciA meu próprio enterro fuiSozinho e chorandoFiz um nó do lenço,Mas esqueci depoisQue não era a única vezE segui cantando
Cantando ao solComo a cigarraDepois de um anoDebaixo da terraIgual sobreviventeQue volta da guerra
Tantas vezes te mataramTantas ressuscitaráQuantas noites passaráDesesperandoE à hora do naufrágioE à da escuridãoAlguém te resgataráPara ir cantando
Cantando ao solComo a cigarraDepois de um anoDebaixo da terraIgual sobreviventeQue volta da guerra
(Mercedes Sosa)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Noutro Lugar



"Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho"

(Caio Abreu)

Recordação (Rascunho de 2009)



O primeiro olhar, o primeiro sorriso, o primeiro andar de mãos dadas, o primeiro beijo. É o último. É como ter certeza que tudo aquilo que sentiu nos últimos quinze minutos nunca mais se repetirá, mesmo que a canção se repita. Mesmo que você volte atrás. É o coração, é a respiração. São todas aquelas lendas sobre acordar e descobrir que dormiu por 25 anos e a partir deste momento, todas as coisas serão novas, serão como um bom dia, uma boa noite. É como chegar cansada e ouvir a voz da pessoa que você escolheu pra estar sempre ali dizendo “querida, como foi o seu dia?”. É o sorrir, se descobrindo uma boba apaixonada, é roer as unhas de ansiedade. É o sim, o não também. É o primeiro fim e o próximo começo de tudo. É a última palavra. É ser a primeira a voltar atrás. É desejar o calor do sol, mas não abrir mão do frio. É um cobertor, um cachecol, um guarda chuva. Me faz gostar, me faz querer tudo de novo. Outra vez.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A gente cansa


A despeito do que poderiam os desavisados pensarem, amor e cansaço não são incompatíveis.

As pessoas cansam de amar, cansam mesmo. Cansam de amar no vácuo, no vazio, a contragosto, na marra, na mão única, com esforço, no amor à camiseta, cansam de amar quando amar é uma luta inglória, é uma sede saciada a conta-gotas.

As pessoas cansam de nos amar apesar de nos amarem muito, as pessoas cansam de nos amar quando o amor é à custa de teimosias, defeitos, desaforos, desatenções, estupidez, falhas de caráter, falta de tempo, descuidos, TPM, stress, chatice, drama, descaso, reclamações, egoísmo, omissões, negligências, grosserias, inaptidões, incapacidades, má administração, indiferença, cronograma insano, sacanagens, ingratidões, desídia, pouco caso, desconsideração, intolerância.

O amor suporta muito e não espera um escambo de atenção e sentimento, mas o amor tem ida e vinda, tem mão dupla, tem uma razão outra que não é puro altruísmo e desapego. Não pense que quanto mais o outro suporta, quanto mais o outro luta, maior é o seu amor. Isso é uma sabotagem imbecil de quem não se sente merecedor ou capaz de retribuir.

Pai dedicado cansa. Filho devoto cansa. Irmão parceiro cansa. Amigo de fé cansa. Até o grande amor cansa. As pessoas cansam e desamam e se perdem e vão embora e não voltam mais. Amor não é para sempre, não, não se engane. O que é para sempre é saudade.

E a gente fica triste e fica infeliz e fica miserável e fica com a vida besta e vazia depois que quem nos ama desiste, a gente fica com a vida oca, fica tudo preto e branco e a gente acha que tá bem, que vai ficar tudo bem e a gente se engana que supera, paciência, não era pra ser, não era forte o suficiente, não era verdadeiro o suficiente, mas não fica tudo bem, não supera coisa nenhuma, não era pra ser uma ova. Nananinanão, senhor.

Porque a gente também cansa da tristeza e do vazio, a gente também cansa da solidão e da miséria, a gente também cansa da infelicidade, mais cedo ou mais tarde, e aí ó, babaus, já cansaram de nós. Portanto, não ponha o amor à prova. Não se proponha a testar até onde ele suporta. Amor não é gincana, não é rali, não é prova de resistência. Amor é pra amar e cuidar muito bem. Já chega o fato de que tem todo o resto do mundo para criar problema, para dar trabalho, para dificultar as coisas. Lute por e não contra. Lute muito, lute bastante. Mereça o seu amor enquanto ele ainda é seu e ainda está aqui.

sexta-feira, 16 de julho de 2010


"Nada, depois que o vi pela primeira vez e ninguém que conheci depois me conseguiu assustar e confundir tanto.
Ninguém que já conheci me fez sentir tão segura e insegura, mais importante e mais insignificante..."

(Herman Raucher)